O que ninguém fala sobre viver em uma ecovila sustentável até visitar uma




Faz alguns anos que ouvimos falar muito em sustentabilidade. Pelo menos uma dezena de posts e notícias sobre o assunto e uma dúzia de amigos e conhecidos almejando um futuro no campo, para viver do que a terra dá, produzindo sua própria energia, tratando seu esgoto e reciclando seu lixo. Já pipocam na internet diversos artigos sobre modelos de comunidades sustentáveis mundo afora em pleno funcionamento, o que sempre instigou a minha curiosidade provocando diversos questionamentos:

Como se organizam socialmente estas pessoas? Existe um (ou mais) líder ou as regras são criadas coletivamente? Como lidam com a necessidade, vontade ou desejo de consumir alimentos que, por fatores naturais ou técnicos, não podem produzir? Como funciona a produção e consumo de energia elétrica? E a água? Esgoto? Gás de cozinha?

As perguntas eram muitas e nada me impedia de ir até a comunidade mais próxima pra uma visita. Num domingo recente convidei minha irmã, colocamos nossos filhos no carro e resolvemos passar a tarde na Ecovila Karaguatá, sobre a qual eu já havia lido algo na web que me despertou um certo interesse.

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Ao chegar no recanto, encravado no final de uma bela estrada cercada de morros na área rural de Santa Cruz do Sul, fomos recebidos por um homem simples, de meia idade, cabelos compridos e um olhar tranquilo. Ao pensar na quantidade de curiosos que aparecem por lá para perguntar coisas sobre o modo de vida que eles levam, confesso que me senti um pouco constrangido ao chegar, mas logo Aquiles nos convidou para entrar na “casa mãe” — espaço aberto de convivência coletiva onde fica a cozinha — e nos deixou muito à vontade, enquanto as crianças brincavam. Na casa mãe, me deparei com um ambiente muito acolhedor, repleto de informações visuais: livros, instrumentos musicais, artesanato, vários painéis de mosaico no chão, paredes de barro com garrafas embutidas para permitir a entrada de luz natural e uma mistura de aromas deliciosos. Um belo fogão à lenha de tijolos e barro, que funciona de acordo com os conceitos da permacultura; a lenha utilizada para a chapa de ferro também aquece o forno de pão, a água da torneira e a sauna que fica do outro lado da parede.

A Casa Mãe

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Enquanto preparava um chá, Aquiles falava sobre como tudo era compartilhado com o grupo, — atualmente formado por 12 moradores — sua esposa Glória chegava de viagem e nos foi apresentada como a única impossível de compartilhar, numa sincera demonstração de afeto. Tudo que se produz dentro da ecovila são bens coletivos, desde o trabalho nas hortas, as colheitas, as construções e até as próprias roupas. Existem os guarda-roupas privativos e coletivos. Destes, toda a roupa que sai deve ser devolvida limpa.

Aquiles é médico terapeuta e ainda exerce a sua profissão em um pequeno consultório dentro da área de 42 hectares, sendo que a grande maioria das terras é mata nativa preservada. Há cerca de aproximadamente 13 anos, optou por uma vida sustentável que ele define como “um estilo de vida onde se busca cessar o sofrimento olhando para dentro”. Para fortalecer isso, costumam fazer todas as atividades da rotina unidos. Acordam juntos, trabalham, cozinham, se alimentam e à noite meditam antes de dormir. Não existe nenhuma linha filosófica ou religião que norteia as suas práticas meditativas da ecovila, apenas reflexões sobre a convivência e o momento do silêncio. Além da meditação, a música também faz parte do cotidiano. Geralmente à noite, eles improvisam sons com instrumentos musicais colocados em uma roda, sem nenhum tipo de compromisso com a técnica, estética ou conhecimento de música, apenas se entregam, cantam e tocam.

Gestão-de-Ecovilas

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Preparação para o sarau

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Num certo momento da conversa, enquanto as nossas crianças corriam brincando de esconde-esconde, me dei conta que eu já estava abrindo a geladeira e armários. Minha irmã amassando o pão como algo que fluiu e, naturalmente em poucas horas, começamos a compartilhar as atividades da cozinha. Foi quando chegaram os outros moradores, alguns com mandiocas e vagens, outros com compras de supermercado, o que nos levou à outras reflexões. Supermercado? Sim, uma garota trazia um pote de sorvete e Glória olhou nos olhou e riu. A sustentabilidade total ainda é um grande desafio, porque não existem recursos naturais, técnicos ou humanos para se produzir tudo que nos acostumamos a consumir. E o desafio reside justamente no fim do desejo. Em se abster completamente de alguns vícios de alimentação, como o café por exemplo. Num exercício diário, o desjejum é composto por chá de erva-mate, pão caseiro, frutas e seus sucos.

Segundo os moradores da ecovila, o maior desafio é a convivência diária, a construção das relações saudáveis sem a imposição de valores ou desejos sobre os outros membros do grupo. Não existem regras impostas ou ditadura de comportamento. Mas, se o objetivo é olhar para dentro, segundo eles, não faz sentido comer carne, utilizar drogas e bebidas alcoólicas ou outras artificialidades como televisores e Smartfones conectados o tempo todo. Quando alguém traz para compartilhar, se consome um bom vinho, se der vontade, e até carne no almoço, sem culpa. Um sorvete, uma bolacha recheada ou uma pipoca, às vezes…

Quando nos deparamos com a realidade de um conceito que nos desperta empatia a ponto de pensá-lo como modelo ideal para nossas vidas, começamos a perceber a complexidade de vivê-lo na realidade sob todos os aspectos, seja no desafio de lidar com a convivência em comunidade, tratar todo o lixo e rejeitos produzidos sem prejudicar a natureza ou a complexidade da produção de alimentos para o consumo, atividade que toma a maior parte do dia dos habitantes da comunidade. O trabalho para produzir algo simples, como a farinha de trigo por exemplo, exige muito mais esforço e dedicação do que podemos imaginar. Assim como a transformação do esgoto em vapor através da bacia de evapotranspiração, uma obra que levou meses de trabalho, entre planejamento construção.

No fim da tarde depois de tanta conversa, ao se despedir, Aquiles sorrindo me disse: — Esquece tudo que conversamos, isso aqui é uma grande bobagem. Eu respondi: — Pode deixar, saindo daqui eu vou apagar estas ideias da minha cabeça e não pensar mais sobre isso.

É justamente o que não tenho feito nos últimos dias, até que eu volte lá para passar mais do que apenas uma tarde.

Música e fogueira

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Sinos Tibetanos para meditação

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Paisagem da ecovila

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Aquiles e Glória

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* Todas as fotos foram copiadas do perfil da Ecovila Karaguatá no Facebook

 

André Marcelo

Notívago por natureza. Sagitariano apaixonado por viagens improvisadas que provocam o contato com a história e com a natureza. Amante da música, do teatro, do cinema. Das dezenas de coisas que já fiz, me amasiei com a produção cultural. Uma vida experimentando novas formas de expressão e relacionamento comigo mesmo e com o mundo.

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