O lado obscuro do planeta “Melancholia” de Lars Von Trier

Atenção! Alerta de SPOILERS!

Flertar com a certeza da finitude das nossas vidas e ainda ter a informação de que existe data marcada para o tal evento, pode ser o pano de fundo para uma série de movimentos psicológicos perturbadores, angustiantes ou até mesmo reconfortantes.

No plano mental de uma personalidade organizada e muito bem estruturada nos pilares das suas convicções e no poder dos rituais sociais impostos pelos seus ancestrais, pensar a própria morte como algo distante, quase intransponível, parece confortável. Ao observar que a grande maioria das pessoas com este traço de personalidade são, de alguma forma, seguidores de alguma religião monoteísta, carregam dogmas morais rígidos e uma tranquilidade em vida com base na segurança da conquista de posses materiais, percebemos que estas reafirmam conceitos que acabam negando os movimentos da natureza/ambiente e artificializando os anseios e angústias da sua própria natureza humana.

Em “Melancolia” (Melancholia – 2011), do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, o diretor aborda de forma metafórica os profundos aspectos psicológicos de duas irmãs, utilizando como pano de fundo a possibilidade de uma iminente colisão de um grande planeta contra o nosso, o que causará o fim de toda a existência da vida na terra. O início do filme apresenta um prólogo de 10 minutos com imagens dos personagens e cenas do filme em câmera muito lenta, quase estática, como uma fotografia surrealista carregada de simbolismos.

Após esta apoteótica exposição de belas imagens ao som de “Tristão e Isolda” de Richard Wagner, Lars divide o filme em dois atos, que levam os nomes das protagonistas, as irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), respectivamente.

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Claire (Charlotte Gainsbourg), John (Kiefer Sutherland) e Justine (Kirsten Dunst)

Justine

O primeiro ato explora a desastrada cerimônia do casamento de Justine com Michael (Alexander Skarsgård), que acontece na mansão da fazenda de sua irmã Claire e do marido John (Kiefer Sutherland), patrocinador da cerimônia da cunhada. Durante o ritual, Justine se apresenta completamente distante de tudo, dissimulando demonstrações afeto pelo noivo e qualquer felicidade pelo acontecimento. Por diversas ocasiões ela se ausenta da festa para mergulhar no seu universo melancólico e letárgico, ora observando o céu, ora dormindo numa banheira. A situação evolui até o ponto de culminar no fracasso do casamento, levando o noivo a desistir de tudo no final da cerimônia ao se dar conta que o casamento não teria futuro algum. A monotonia das cenas e a forma como Lars Von Trier conduz o primeiro ato acaba sendo, talvez propositalmente, exaustiva e melancólica.

Temos aqui ainda a presença dos pais de Justine e de Claire, vividos por John Hurt e Charlotte Rampling. Os dois representam sentimentos antagônicos presentes na vida das filhas. O primeiro é uma figura alegre e espontânea, mas ausente, sempre partindo. Já a mãe é uma figura fria, cínica e desiludida, que parece se identificar muito com a visão de Justine sobre a desimportância de rituais como o casamento. Justine acaba se mostrando uma personalidade desinteressada pelas convenções sociais e artificialismos, utilizando como metáfora a sensação que ela própria descreve de que existiriam fios de lã cinza em suas pernas que a impedem de andar, de caminhar pela vida que lhe fora imposta. Uma metáfora que o diretor também utiliza no filme “Anticristo” (Antichrist – 2009).

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Ainda na primeira parte, Justine permanece na casa da irmã, onde mergulha cada vez mais numa profunda depressão e num total desinteresse pelo mundo externo. Neste período da letargia de Justine, o diretor começa a explorar a situação do planeta em rota de colisão com a terra, mostrando o interesse de Claire, John e Léo (Cameron Spurr), filho pequeno do casal, pelas informações que chegam pela internet, impondo aos personagens sérias dúvidas sobre a real possibilidade de colisão do Melancolia.

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Cena do prólogo que mostra Melancolia e a Lua

Claire

No segundo ato de Melancolia, a protagonista é Claire. Enquanto no primeiro, o foco era o casamento de Justine, o segundo traz à tona a influência do possível desastre na vida dos personagens. John é um cientista, que tenta provar através de cálculos e das suas observações no telescópio, que não haverá colisão, mas apenas uma passagem do planeta, o que será uma experiência inesquecível na vida da família. Enquanto Claire é tomada um processo de angústia e desespero diante da possibilidade do fim, revelando toda a fragilidade antes velada pelas convicções de sua vida perfeita e regrada, Justine desenvolve um sentimento de serenidade, passando a acalentar a irmã e o sobrinho Léo, que enxerga Justine como a “tia invencível”.

Num período de incertezas sobre a colisão do planeta Melancolia, ou “O Viajante”, como é chamado na internet, enquanto os cavalos agitam-se no estábulo, John vira noites a observar e calcular a rota do planeta, Claire se angustia cada vez mais e Justine banha-se nua sob a luz de Melancolia. Metaforicamente se despindo de todas as convenções e máscaras que lhe foram impostas, se entregando à sua origem, se deleitando com seu destino e revelando a sua conexão com o movimento da natureza e sua serenidade diante da possibilidade do fim de toda a vida na terra.

“A vida existe só na terra, e não por muito tempo. A vida na Terra é má, e quando ela se for, ninguém sentirá falta”, afirma Justine numa conversa com Claire.

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Ao constatar matematicamente a colisão como inevitável, numa atitude egoísta, John comete suicídio. Os cavalos voltam à tranquilidade. Com a aproximação visível e rápida de Melancolia no céu, Justine encontra o seu espaço de proteção, transmitindo sua força à Claire e Léo através da metáfora da caverna, o recanto de paz diante do inevitável, do que está fora de controle. Mesmo assim, Claire ainda tenta propor mais um ritual para a espera do fim: brindar com vinho no terraço. Olhando incrédula nos olhos da irmã, Justine, a “tia invencível” apresenta outra proposta para o final apoteótico e de tirar o fôlego de Melancholia.

“Eu sei das coisas”, diz Justine.

Melancolia é, sem dúvida, a obra prima de Lars Von Trier. Com atenção especial à fotografia impecável e à trilha sonora que você pode ouvir AQUI.

Abaixo o trailer oficial legendado:

André Marcelo

Notívago por natureza. Sagitariano apaixonado por viagens improvisadas que provocam o contato com a história e com a natureza. Amante da música, do teatro, do cinema. Das dezenas de coisas que já fiz, me amasiei com a produção cultural. Uma vida experimentando novas formas de expressão e relacionamento comigo mesmo e com o mundo.

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