Experimento psicossocial simula país de eleitores de Bolsonaro

Por Rafael Escobar

No último mês a totalidade dos eleitores de Jair Bolsonaro em Porto Alegre vem participando de um experimento psicossocial proposto pelo Instituto de Psicologia da UFRGS. Todas as atividades do Campus do Vale foram canceladas, e o lugar está sendo o “país” onde os eleitores vivem. “Nós queremos ver até que ponto o elemento comum entre eles, qual seja ‘Bolsonaro Presidente 2018’, permanecerá sólido enquanto todas as outras diferenças que eles possuem ficarão cada vez mais evidentes e determinantes de seus comportamentos”, disse a diretora Maria T.; “Acreditamos que o problema da diferença de classes já será de início um empecilho, mas vamos ver no que vai dar”, concluiu a psicóloga na coletiva de imprensa realizada no primeiro dia do experimento.

E foi exatamente o que aconteceu: distribuídos pelas habitações do campus de acordo com seu poder aquisitivo, com a renda individual e familiar, muitos dos eleitores ficaram sem um teto sobre suas cabeças e tiveram de improvisar tendas e barracos nos mais variados espaços do campus. “Fico triste, é claro, de ver pessoas que também sabem o que é o melhor para o país terem que ficar nessas condições, mas (pausa) o que eu posso fazer? (pausa) tipo, meus pais trabalharam muito a vida inteira, e por isso a gente conseguiu ficar numa suíte no Banco do Brasil, em cima do ‘Chiques’ e tal”, disse Amanda G., 19 anos, estudante de História da Arte, “De certa forma até acho bom, porque me lembra aqueles museus de favela, sabe?, acho fascinante, e o mais legal daí, no caso, né (pausa) é que as pessoas que tão ali ainda concordam com a gente, sabe?, tá todo mundo unido”, concluiu a jovem.

Geraldo F., 41 anos, foi o homem escolhido pela organização do projeto para representar o presidente do lugar; e foi decidido também que não haveria nenhum outro cargo político, apenas o presidente, porque, como disse Maria T., “Parece que é o que essas pessoas gostam, tudo centrado numa figura só, costuma ser assim”. A organização do experimento deu ao lugar o nome de “Bolsonarópolis”; porém, o próprio Geraldo, presidente, e muitos outros, no início, por incrível que pareça, ficaram insatisfeitos com o nome e pediram à organização para que pudessem chamar o lugar de “Brasil”; através dos megafones espalhados pelo campus, a organização anunciou que “Não”, que “Não será possível utilizar o nome real de um país ainda democrático”; poucos protestaram durante alguns dias, com passeatas murchas, e nas redes sociais com a hashtag #pqnao?, e obtiveram a resposta “Porque não”. Ao que parece, assim que receberam essa resposta, se acalmaram e não fizeram mais nenhum tipo de baderna; entenderam que era uma “questão de hierarquia, e isso tem que ser respeitado, tudo bem, o que importa é que aqui não tem corrupção, grande coisa um nome”, como relatou à nossa repórter o pai de família Alberto M., 52 anos, dono de um restaurante quase falido no centro da cidade. Junto, na entrevista, estava seu filho, estudante de Direito com bolsa na PUCRS, a quem perguntamos sobre como vinha lidando com esse período sem aulas, se tinha saudade; “Bah, pior que não”, respondeu o rapaz, “vou te dizer que eu já tava um tempo meio (pausa) revoltado com a doutrinação marxista da PUC (pausa) se dizem cristãos, mas só querem saber de dinheiro, nem sabem que Marx era ateu e rico, tu sabia? (pausa) e, por exemplo, todo o Direito Penal brasileiro vem do regime comunista do (pausa) do Pol Pot, que foi um, um (pausa) lá em Camboja, no Camboja, morreram milhões (pausa) e a real é que hoje em dia, com a internet, com o Whatsapp, o Facebook, a gente aprende muito mais, e (pausa) mais importante ainda, a gente aprende a verdade, tipo, meu tio (pausa) meu tio me manda muito material bom”.

Também foi proposto pela organização que o presidente Geraldo F. utilizasse uma máscara sempre que aparecesse em público; o argumento, que a população pareceu também rapidamente compreender, era que a adoração ao líder não estivesse vinculada a um rosto humano, mas a algo mais simbólico e misterioso, como, por exemplo, ideias; diz-se que máscaras causam uma espécie de angústia por não sabermos com exatidão o que há por trás delas, mesmo em casos de máscaras assustadoras, que não é isso que nos assusta, e sim o mistério de algo estar escondido – por trás de uma máscara pode haver alguém bom ou ruim, e isso é o centro da questão. Foi já de início banida a possibilidade de uma máscara que reproduzisse o rosto de Jair Bolsonaro, e a organização realizou uma votação em papel entre as seguintes opções de máscara: Pinhead (Hellraiser), Hockey Mask (Jason), Dalí (La Casa de Papel) e Guy Fawkes (V for Vendetta). Houve um empate entre as duas últimas, e, no segundo turno, foi eleita a máscara de Guy Fawkes, que ganhou com grande folga; ao que tudo indica, devido ao fato de que havia muitos que, apesar de odiarem a máscara de Guy Fawkes, também se recusavam a votar na outra, e por isso simplesmente anularam seu voto.

No primeiro dia do experimento, na triagem, quando estavam para ser distribuídos em suas respectivas habitações, todos os indivíduos receberam um kit particular, que recebeu o apelido carinhoso de Kit Whey, composto de uma arma de fogo, uma caixa de munição e uma Bíblia. Toda vez que era entregue o kit para um futuro morador, era feita a pergunta “Você está feliz de receber este kit?, acha que ele é necessário?”; 100% das pessoas responderam “Sim”, e então foi feita a pergunta “Mesmo sabendo que você está indo conviver com pessoas que pensam como você?, pessoas que teoricamente não são nem defendem bandidos?”; 100% das pessoas continuaram respondendo que sim e, quando foram questionadas novamente e convidadas a explicar a decisão, não souberam exatamente o que falar, mas realmente todas pareciam ter a sensação de que, mesmo assim, seria de extrema importância ter uma arma. Fátima R., uma das psicólogas organizadoras explicou que, na visão dela “Os únicos reais motivos honestos para uma pessoa defender que tem direito ao porte de arma são o de que ela gosta de armas e o de que ela quer ter uma arma, qualquer outra explicação além dessas tende a não fazer nenhum sentido, e (pausa) esse papo de ‘autodefesa’ é balela porque a possibilidade de uma arma de fogo realmente ser útil numa situação de ameaça, dentro ou fora de casa, é infinitamente menor do que a possibilidade de uma arma de fogo causar um desastre nessas ou em outras situações (pausa) concordamos que, para uma arma de fogo ser usada numa situação de emergência, ela deve estar de fácil acesso ao portador (sic), e se ela está de fácil acesso ao portador, está de fácil acesso a qualquer um, inclusive crianças, etc”. De fato, por algum tempo, aparentemente ninguém fez uso das ferramentas oferecidas pelo Kit Whey, nem da arma, nem da Bíblia, mas isso mudou.

Para a surpresa da maioria dos compatriotas da Bolsonarópolis, descobriu-se que havia uma quantidade até que significativa de negros, gays, pobres, que também compartilhavam os ideais políticos, econômicos, sociais, do grande líder, e, de início, ao serem interrogados sobre isso, os membros da maioria (homens brancos heterossexuais) responderam como Matheus B., 28 anos: “pois é, eu tava ligado que tinha, assim (pausa) eu nunca tinha falado com nenhuma pessoa (pausa) né (pausa) desse tipo, mas respeito e sei que eles não são como os outros que nem eles, porque (pausa) né, se vão votar no Bolsonaro é porque são pelo menos um pouco mais inteligentes (risos)”. Uma semana depois de ter dito isso, foi o próprio Matheus B. que cometeu o primeiro homicídio no campus, matando justamente um jovem homossexual que, segundo Matheus, tinha assediado sua namorada. Existe, no campus, um lugar chamado C.V. (cê vê), que, segundo se diz, era a sigla para “Centro de Vivência”, mas que, por ser imediatamente associado pela maioria ao “Comando Vermelho”, mudou para C.B.F. (cê bê efe), sendo a sigla para Centro Bolsonariano de Farra; este novo nome, no entanto, não foi escolhido pelos próprios habitantes do lugar, justamente aquelas minorias apoiadoras do Bolsonaro, que estavam satisfeitas com o nome original, e sim pelos outros, que, sabendo que era “esse tipo de gente”, como disse Matheus B, que passou a viver ali, logo surgiram com o novo nome. Conta-se que Matheus entrou no C.B.F. gritando “Cadê o viadinho que mexeu com a minha mulher?” e que, assim que encontrou Henrique D., 18 anos, deu três tiros no rapaz e saiu correndo, voltando ao pequeno complexo de elite que ficou conhecido como “O Bunker”, onde funcionava o “Antônio de baixo”.

O psicólogo Irineu S., após o incidente, declarou que “Sabíamos que isso iria acontecer, e é doloroso ver, é claro; é evidente, também, que os problemas iniciais surgiriam, entre eles, com esse tipo de configuração; não seria já de início entre membros da mesma classe, da mesma cor, etc. (pausa) porém cremos que é só uma questão de tempo até também acontecerem coisas assim nas mais variadas camadas do microuniverso (pausa) esperamos justamente que eles percebam que, por mais que pareçam defender as mesmas ideias, em uma microrrealidade só deles, vai acabar surgindo uma estrutura social muito semelhante àquela que eles teoricamente querem combater (pausa), só que dessa vez terá sido estruturada apenas por eles mesmos”. O presidente Geraldo F. declarou, sobre a morte de Henrique D., que “Coisa certa ele não devia ter feito mesmo, pro cara reagir assim alguma coisa aconteceu”. Segundo contam os amigos do rapaz assassinado, ele havia passado a mão nos cabelos da namorada de Matheus, elogiando suas mechas, numa conversa informal.

A declaração do presidente acima mencionada foi, porém, uma das poucas que ele fez durante todo o tempo do experimento até agora; Geraldo tem falado muito pouco em público, e sempre falas rápidas, superficiais, sobre qualquer assunto. A verdade é que o povo, que há um bom tempo sonhava em tê-lo como presidente, parece estar cada vez mais angustiado, já que não sabe com exatidão como ou se as promessas que ele havia feito poderão se tornar realidade; perceberam que haviam baseado sua decisão de voto em falas genéricas sobre assuntos complexos e que talvez houvesse sido melhor ter pensado, lido, pesquisado em boas fontes um pouco mais antes de colocar o homem no poder. “Cara, vou te dizer que eu nem tinha me ligado que na real eu fumo maconha volta e meia, e um dos lance do cara é acabar né, com (pausa) os maconheiro (sic), mas eu também não sou (pausa) maconheiro (pausa) mas tô me sentindo meio ameaçado, nem tem como fumar aqui, não tem maconha, acho, mas ficaram sabendo (pausa) e de outros também (…)”, disse Gabriel F., estudante de Engenharia Elétrica, e foi corroborado por sua mãe: “Pois é, eu sempre soube que o Gabriel puxava fumo de vez em quando, mas nós nunca falamos sobre isso, sempre foi um assunto, como diz, velado, entre nós (pausa) mas o pai dele nunca soube, e agora que tá sabendo não sabe o que fazer, mas isso é culpa das companhias dele, com certeza, sempre disse que ele não devia andar com aqueles amigos”. Uma parcela da população parecia estar cada vez mais revoltada com o grupo de “companheiros” que usam drogas e, uma semana atrás, depois de uma reunião que durou uma tarde inteira (com churrasco e muita cerveja), bastante bêbados, segundo o relato de sobreviventes, homens desse grupo partiram com suas armas rumo ao C.B.F. com a intenção de “fazer uma limpeza”; invadiram não apenas esse lugar, mas também os quartos mais humildes, nos institutos de Letras, Filosofia, História, e os próprios barracos que ficavam pelos corredores abertos do campus. Até agora contou-se um total de 89 mortos.

A população logo ficou bem dividida entre aqueles que concordavam com o que havia acontecido e incentivavam que continuasse acontecendo (“ué, estamos apenas botando em prática o que a gente acredita, o lance aqui é Bolsonaro”, disse uma mulher que não quis ser identificada), e aqueles que passaram a discordar desse tipo de ação (“cara, eu acho que quem tá prejudicando a sociedade tem que ser eliminado, só que, tipo, olha onde eu moro, tô morando na Filosofia aqui, comendo pouco, os cara aumentaram o preço de tudo, os cara do Banco do Brasil, se esconder ali é fácil, tem filho da puta ali também, ou tu acha que não tem uns deles que tão cheirando pó lá, porra, pra entrar na minha casa é só dar um bico na porta, mas eles lá como é que eu vou pegar?, o bagulho aqui é Bolsonaro, mas não tem como, cara!, tem preto lá também, viado, tudo, mas os cara tomaram conta, minha mulher trabalha na cozinha do Chiques, já tão pensando em fazer greve ali, tá difícil a coisa”, disse um homem que também não quis ser identificado).

O presidente Geraldo F. não se pronunciou a respeito do acontecido, mas a organização resolveu fazer um experimento dentro do experimento, e criou um vice-presidente falso (até então ninguém havia nem questionado muito sobre quem era ou se havia um vice-presidente) que foi enviado para fazer um discurso, usando também uma máscara. A máscara escolhida foi uma réplica em borracha do rosto do “Generalíssimo” Francisco Franco, que a maioria ali não pareceu ser capaz de reconhecer (a primeira e a segunda opção de máscara haviam sido Hitler e Mussolini, mas devido à grande popularidade da fisionomia dos dois, optaram por uma menos famosa). No momento do discurso, havia cerca de cinco mil pessoas no Anfiteatro atrás do C.B.F.; o presidente Geraldo F. estava presente, com sua máscara do Guy Fawkes, mas foi recomendado a permanecer em silêncio enquanto o vice falaria, algo que ele respeitou; diz-se que o presidente andava muito inseguro e que ficou até mesmo aliviado quando soube que alguém falaria por ele; os dois ficaram lado a lado no palanque, e o inédito vice-presidente, ao contrário do que sua máscara de ditador sugeriria, fez um discurso em defesa dos direitos humanos e da democracia. Porém, em momento algum utilizou qualquer uma dessas palavras ou de outras, como “políticas públicas”, “minorias”, etc. Utilizou apenas termos mais gerais e conceitos em vez de nomes, classificações. “A confusão no semblante de todos era nítida”, disse a historiadora Fátima G., “as pessoas observando alguém ao lado do seu líder, fazendo um discurso que parecia (deu ênfase na palavra) com o discurso de seus supostos opositores, realmente deu uma espécie de pane na cabeça das pessoas (pausa) a primeira salva de palmas foi de muito poucos, e bem baixa, nem dá pra dizer que foi uma salva de palmas (risos) mas, no final, depois de uma hora de discurso, todos, absolutamente todos, estavam aplaudindo efusivamente (pausa) e pessoas das mais diferentes”.

Depois desse evento, no entanto, a organização nunca mais enviou o falso vice-presidente e deixou o lugar exatamente como se encontrava antes. “Alguém que não hesitaria em te eliminar se você, por acaso, mudasse de opinião, se você não concordasse com uma coisa que seja, não é alguém que você queira apoiar”, foi a frase que o sociólogo Jorge K. falou nos megafones espalhados pelo campus, com a intenção de impulsionar reflexões e, depois, em off, apenas para nós, completou: “o sentimento de que se está lutando por algo que diga respeito a ‘todos’, e esse ‘todo’ sempre se traduz em ‘a nação’, ‘o povo’, etc., é justamente o que move muita gente nesse tipo de direção, porém é um grande problema, e esse nunca será um pensamento a respeito de justiça ou de igualdade (pausa) é o pensamento mais fácil de entranhar em quem faz parte de uma elite pequena, que, no fundo, precisaria de pouca ou nenhuma mudança para continuar na boa situação em que está (pausa) então se joga o compromisso, assim, pra um constructo, uma coisa meio abstrata, o país, a nação, mas quem é o país, a nação? (pausa) pode ver que nesse microuniverso que estamos testemunhando esse tipo de discurso está morrendo, e cada vez mais é voltado para o seu nicho específico, exatamente como é na realidade e para alguns parece ser difícil perceber (pausa) no discurso do falso vice, em nenhum momento foi colocado esse tipo de visão, e sim foram ressaltado (sic) as importâncias de qualidade de vida para cada um (ênfase) dos grupos sociais existentes, com uma visão mais geral no horizonte, mas nunca de primeira, nunca desde o início, porque não é assim que funciona”.

Deixados novamente à mercê de seu líder e de seus próprios ideais, agora mais confusos devido à intromissão de pensamentos mais coerentes, em questão de três dias, a sociedade cunhada de Bolsonarópolis entrou na sua maior crise desde o início de sua história. A insatisfação gigantesca, pelos mais variados motivos, com o governo do tão sonhado presidente, levou seus eleitores a um estado de confusão também avassalador. Mário R., 38 anos, dono de um armazém, morador do “Estacionamento B”, confessou: “Antes, quando a gente tava insatisfeito com o governo a gente podia só protestar, fazer campanha no Facebook, e a gente acreditou no Bolsonaro! (gritando), mas olha aí, continuou tudo uma merda!, até piorou!, e agora nós tamo (sic) armado e nós não vamo deixar passar essa palhaçada (pausa) o problema é que os outro também querem, tem vários querendo, vai virar uma guerra isso aqui, mas é assim que é numa democracia né, eu tenho o direito de matar quem eu quiser, que nem os outros tem direito de me matar também né (pausa) tem os militar querendo golpe militar, os empresário querendo golpe empresário, tem golpe gay, golpe dos cheirador, golpe das mulher antife, antifeminismo, só não tem golpe comunista graças a Deus (…)”.

Estamos a uma semana do término do experimento, e a quantidade de fugitivos já é grande; todos têm menos de 30 anos. Terminaremos a matéria com uma seleção de declarações de alguns desses jovens fugitivos do experimento realizado no Campus do Vale:

“bah, eu me liguei que tem umas pessoa que defendem o negócio mesmo porque pensam naquilo tudo ali e acham que é aquilo ali mesmo, mas eu não era isso, sei lá, eu tava muito mais indo na onda, achando que tava certo, mas sei lá, tipo, sempre tive umas dúvidas, mas não dava muita bola, ficava mais só olhando o mesmo lado”

“não dá, tá louco, achava que eu ia tá segura, mas os homem realmente, principalmente os homens, bah não dá”

“é, eu percebi que eu nunca tinha pensado de um jeito mais concreto, tipo como que essas coisas vão funcionar, o que que pode acontecer?, saca?, tava mais só no geral mesmo, mas tem que ver, os treco são perigoso”

“cara, mataram um amigo meu porque ele passou a mão na bunda duma mina, que, tá, é errado né, daí o mesmo cara que matou o meu amigo matou também a mina, porque ela tinha deixado meu amigo passar a mão na bunda dela, ele gritou isso pra ela, ela era namorada do cara, ele matou a namorada, não deu nada, o cara é rico, tipo, eu sou rico, mas ele é muito mais rico, não deu nada!, e prometeram me matar, daí vazei”

“inventaram que minha irmã tava lendo uns livro de comunista, viralizou no Whatsapp ali, entraram no nosso quarto, quebraram tudo, levaram minha irmã, nunca mais vi, ela nem gostava de ler nada, nunca leu nada!”

“tipo, não aconteceu nada muito ruim comigo, tá ligado, mas bah, tava muito tenso o clima, meus pais ficaram, mas azar, eles acreditam mesmo no negócio, eu percebi que eu não botava tanta fé assim, tava muito mais pelo lance meio moral assim né, porque eu realmente acho errado, sei lá, ser gay, coisa assim, mas tô achando que não é esse tipo de coisa que tenha que pesar na hora de escolher um presidente, ou algo assim né, sei lá, e eu tava mudando já esse lance, porque tava convivendo com mais gente, e, mas, é, tipo, eu tava seguro lá, eu acho, mas não conseguia mais ver a quantidade de treta que tava dando”

“eu aceitei participar porque pensei que, bom, se todo mundo lá vai ser pró-Bolsonaro, e o presidente vai ser exatamente como ele seria, não teria como dar errado, mas não imaginava que existia tanta diferença mesmo entre nós, e que é difícil de fato dar certo com todas as ideias defendidas aprovadas e vigentes, isso que lá nem tinha a quantidade de vagabundo e sei lá o que mais que tem no mundo real aqui fora né?, ainda não sei o que eu acho exatamente, mas uma coisa assim no país eu não vou querer não”

“nessa experiência eu aprendi, eu e toda minha família na real, porque todo mundo resolveu sair, que coisas bem complexas não têm como ter soluções tão simples, que nem são soluções na verdade, né, que dá pra repensar um monte de coisa, claro que não sei se no país inteiro seria igual, pode ser que não fosse tão ruim assim, ou podia ser pior, é, acho que ia ser pior até, porque ali pelo menos era entre os eleitor dele né?, imagina gente que nem queria essas coisas, gente que queria o contrário”


  • Esta é uma obra de ficção.

Rafael Escobar  é escritor, autor do livro “Elogio dos Tratados sobre a Crítica dos Discursos”, e também escreve na página Fragmento de Frase, no Facebook.

André Marcelo

Notívago por natureza. Sagitariano apaixonado por viagens improvisadas que provocam o contato com a história e com a natureza. Amante da música, do teatro, do cinema. Das dezenas de coisas que já fiz, me amasiei com a produção cultural. Uma vida experimentando novas formas de expressão e relacionamento comigo mesmo e com o mundo.

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