Crianças, vocês terão de estudar muito. A vida é competição!




Dizem que nós, as pessoas adultas, entendemos de quase tudo. Pelo menos diante das crianças, nos esforçamos ao máximo para esconder todos os nossos medos, inseguranças e dúvidas sobre a existência misteriosa e sem sentido na qual estamos mergulhados, como estivéssemos em um sono profundo.

O discurso me parece mais ou menos assim:

“A vocês crianças, diremos: vocês terão de estudar muito! Se dedicarão à escola ao máximo, se esforçando para serem excelentes e se sobressaírem aos demais. Terão de ser vencedores, porque a vida é competição. Os estadosunidenses criaram e disseminaram o termo “looser“, para os fracos, perdedores, pessoas que não conseguem “vencer da vida”, jamais seja um deles. Para entender a vida, deverão aprender coisas que nós aprendemos, passar por todas as experiências que passamos, de acordo com os nossos métodos. Ficarão atentos aos perigos que nos cercam. As pessoas são perigosas, a natureza é traiçoeira, o mundo lá fora vai atropelar vocês para obter vantagens. É que nós, os adultos, sabemos exatamente como a vida funciona. Temos experiência para guiar os seus passos. Ajudaremos vocês a serem pessoas justas, inteligentes, cultas, sábias, bem informadas, centradas, bem-sucedidas e felizes. Temos todas as fórmulas para lhes ensinar isso.
É que nós, que somos adultos, sabe? Aprendemos a ter opiniões formadas sobre todas as coisas, porque somos cientistas, engenheiros, advogados, juízes e presidentes do mundo. Queremos orientá-los, doutriná-los e treiná-los para que vocês possam dar continuidade às nossas brilhantes conquistas”.

Crianças, vocês terão de estudar muito The Wall, Pink Floyd
Cena do musical “Pink Floyd – The Wall”, de Alan Parker

Mas a verdade é que nós, as criaturas adultas e maduras, perdemos o brilho no olhar, a capacidade de lidar com a contemplação mais pura de acariciar um bichinho, respeitar uma planta, olhar para a natureza com os olhos de uma criança. Buscamos terapias, ansiolíticos, antidepressivos, academias, religiões… E quando estas práticas sintéticas nos beneficiam, nosso querido ego quer mostrar para o mundo que somos plenos e perfeitos; lá no Instagram, no Facebook, nas belas fotos com filtros e maquiagens, caras e bocas que caricaturam as nossas falsas felicidades do dia a dia. No fundo dos nossos corações, queremos apenas resgatar o amor, a espontaneidade e a intuição; valores que as crianças ainda não perderam.

Nós perdemos a noção do tempo, desaprendemos a respirar, não sabemos correr no parque pelo simples prazer de correr no parque. Corremos para manter a forma, fazer média no aplicativo da moda e competir. Chegamos em casa, olhamos no espelho e dizemos a nós mesmos: -Eu me supero a cada dia, sou vencedor… Vencedor do quê? Recebemos como efeito colateral a angústia da insônia ou a solidão de dormir sozinho, mesmo que, muitas vezes alguém esteja dividindo a mesma cama conosco.

Nos empenhamos para impressionar pessoas que consideramos atraentes, para quem sabe, utilizá-las para o sexo, preenchendo vazios, ou até encontrarmos no outro o que consideramos “amor”; aquele que raramente conseguimos acessar dentro de nós mesmos. Nós, as criaturas crescidas, descobrimos que, tomar comprimidos aprovados pela Anvisa, nos ajuda a sobreviver; sem perder o fôlego, o sono, a tolerância e o juízo. E que algumas outras drogas “não aprovadas pela Anvisa“, também aliviam as tensões, mas nos culpamos por isso. Nós, os denominados “adultos”, empreendemos todos os nossos esforços para que as crianças não sofram, mesmo que o preço disso seja aprisioná-las dentro dos nossos conceitos.

Crianças, vocês terão de estudar muito Tirinha Mafalda

Estamos surdos, perdemos a visão, o olfato, o paladar, o tato. Perdemos a essência, a individualidade, a pureza, a capacidade de agir e interagir sem esperar recompensas. Perdemos a noção de que a vida é um mistério indesvendável, acreditando em mitos e mágicas inventadas por religiões, gurus impostores, mentiras sórdidas de doutrinas maniqueístas, manipulações e superstições muitas vezes aterrorizantes, que têm como maior objetivo impor o medo e o controle. Um medo ampliado que, na maioria das vezes, não condiz com a realidade. E, mesmo de forma inconsciente, reproduzimos isso para as nossas crianças.

É… nós, os adultos, aprendemos tudo errado. Aceitamos a miséria existencial como se fosse imutável, como se não existisse outra forma de viver neste mundo. E, desta forma ensinamos às nossas crianças que a vida adulta não é nada lúdica, que sorrir ou chorar demais demonstra fraqueza, que a sexualidade é feia e suja, que a natureza oferece perigos mortais. Assim aplicamos o desgraçado ofício de retirar delas, aos poucos, a própria vida.

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André Marcelo

Notívago por natureza. Sagitariano apaixonado por viagens improvisadas que provocam o contato com a história e com a natureza. Amante da música, do teatro, do cinema. Das dezenas de coisas que já fiz, me amasiei com a produção cultural. Uma vida experimentando novas formas de expressão e relacionamento comigo mesmo e com o mundo.

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