Chico e a polêmica “Tua Cantiga”




Chico Buarque retornou recentemente ao seu processo de criação e composição de novos trabalhos com o álbum “Caravanas”, previsto para ser lançado ainda neste mês. No dia 28 de julho, postou no Youtube o clipe de um dos temas do novo disco, “Tua Cantiga” e rapidamente as polêmicas começaram. Um compositor que, durante a sua trajetória de criação artística, sempre representou muito bem o universo feminino, sendo considerado por muitos “um homem com alma de mulher”, ao evocar uma personagem feminina passível de ser resgatada de uma condição por promessas de um “cavalheirismo” um tanto arcaico, Chico foi alvo de todo tipo de críticas na internet. Uma blogueira chamou atenção na web ao usar como chamada de um post intitulado “O Amor datado de Chico Buarque”, a seguintes frases:

“Eu não sou essa mulher que ele evoca. Essa que precisa ser salva, que sonha com o reino do lar, essa que goza ao ouvir “largo mulher e filhos”; “De repente, pra um monte de mulheres, ‘largo filhos’ soou tão romântico quanto um arroto no meio do beijo. Uma deselegância, uma sacanagem, uma coisa feia e desnecessária. A gente broxou.”

O post (LEIA AQUI e RETORNE) gerou muitos comentários de protesto, algumas acusações, análises e interpretações bem controversas, mas que valem a pena ler. Há até quem cogite uma metáfora sobre o panorama político atual, confira:

“Crueldade, não fale dele assim. Chico nunca foi ético ou moral, que bobagem é essa, menina. Ele é a voz do homem/menino/bobo/humano/perdedor/mortal… E se vc não entende o que é um artista interpretar o homem comum, o homem do povo, você nunca amou Chico”.

“Chico datado? As obras, a existência agora tem validade tipo iogurte? Ele não precisa ser o que não é: o Criolo, Lineker ou Jaloo. Não precisa acompanhar os novos ventos só pra dizer que está navegando a favor da maré para fisgar público jovem e engajado”.

“Quem realmente gosta e conhece o trabalho do Chico vê perfeitamente que ele ele ao fazer esta música está refletindo o sentimento de voltar a viver em uma ditadura e ter que, de novo, ir ao resgate da amada democracia, através de músicas veladas, disfarçadas. Mesmo que tenha que deixar mulher e filhos, ele promete que, se ela quiser (leia-se o nosso povo brasileiro), ele vai de novo tentar salvá-la para vê-la voltar a dormir na sua casa, na sua cama (leia-se no seu país, na sua casa, na nossa, aliás)”.

“Tudo é mesmo uma questão de interpretação de texto (prática cada vez mais rara). Interpretei “largo mulher e filho” como a pior coisa que alguém pode fazer (sabe metáfora? Como “eu morreria e mataria por vc”, só que menos óbvio)”.

“Adorei a sua crítica. Chico corre aceleradamente de volta ao passado, seja na música – um rondó, uma valsinha – seja na letra ultrapassada de velho que corre atrás de uma saia. Desde o CD anterior isto está mais que claro. E nesses tempos de luta aberta das mulheres, essa letra é execrável; não sei porque ainda não levou muitas pauladas. Talvez seja pela irrelevância e chatice”.

“Na minha humilde opinião, acho que a autora incorreu num equívoco clássico, já previsto inclusive em canções: É que Narciso acha feio o que não é espelho. Ou seja, a música só é boa se falar de mim, se estiver refletida em si a imagem de minha própria vida. É um erro em se tratando de um compositor tão polifônico como Chico. Suas canções são povoadas de vozes as mais diversas. Desde o garoto romântico de Até Pensei, a travesti Geni, passando por mulheres maravilhosas, como em Olhos Nos Olhos, O Meu Amor, Folhetim entre tantas outras. Ouvir Chico é mais que uma mera identificação de um momento ou romance. É sobretudo um execício de alteridade”.

Eu diria que o tempo passou e esta nova geração não está muito ambientada com a linguagem na qual Chico Buarque sempre transitou. A começar que, a primeira pessoa de Chico, raramente vai refletir a voz do próprio artista ou a opinião dele sobre tudo – e esta geração acostumou-se a tomar ao pé da letra a obra como reflexo da opinião do seu criador. A primeira pessoa de Chico são as diversas personagens que ele cria, com material bruto extraído da observação do cotidiano, da vida das pessoas, dos relacionamentos.

Chico usa metáforas complexas utilizando-se de expressões populares. Retrata o universo cotidiano de homens e mulheres, sejam eles bandidos, políticos, malandros, machistas, prostitutas, submissas, etc. E o que faz do Chico ser Chico, é que ele brinca com isso, falando em primeira pessoa, defendendo a voz, as dores e os desejos de cada personagem, isento de questões morais. Chico é um cronista da vida.

Leia também: Que Farra é essa?

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Links: Huff Post, Globo.com

André Marcelo

Notívago por natureza. Sagitariano apaixonado por viagens improvisadas que provocam o contato com a história e com a natureza. Amante da música, do teatro, do cinema. Das dezenas de coisas que já fiz, me amasiei com a produção cultural. Uma vida experimentando novas formas de expressão e relacionamento comigo mesmo e com o mundo.

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